domingo, 6 de abril de 2014

inquietação

viver silenciosamente, estoicamente, ofuscantemente. não pecar e não ser. ser só. a qualidade da rotina de ser claridade e ser somente o que se vê. não se deve bulir com irrealidades, a dissemelhança nos jogos coloridos e padrões de horas carcomidas. o incompreensível que é tantas vezes guardado para o último segundo, quando a luz do foco se desliga e a cortina se fecha e alguém varre a sujidade do espetáculo. os nomes, o soar estranho de uma nota antiquada, como um violino gasto pelo tempo, ecoando no sotão de um lar perdido. o tempo, os confins do oceano das suas vontades. o abismo, a fé de que podemos voar quando na verdade, o mundo não é senão um aglomerado de faces e em cada face um aglomerado de mundos, para trancar a imensidade do universo em sí mesmo. nunca conheceremos o nosso grandioso e tampouco o ínfimo se é que dentro de nós exista algo tão grande ou tão pequeno. o cinzento, a cor neutra da existência aos olhos que nada veem e vir a descobrir que quem melhor via, via para dentro. o alívio, a mesma fé de quem ignora o abismo. na repetição encontra-se a constância do conformo, o ciclo seguro da conformidade. o invulgar, o pouco visto, o ciclo rompido por uma força carmim e remanescendo sobre o infindável comum. o comum, como uma cola ordinária sobre o terceiro olhar da sensibilidade. ressoa o violino pelas portas do paraíso enquanto as janelas vibram à ruidosa arte, deus tem tocado e ninguém o tem ouvido e de arpa em punho um anjo canta:

toca violino toca, 
de pernas cruzadas numa colina, 
há quem diga que é homem,
há quem diga que é menina.

a contestação, o porquê do porquê, a interrogação nula. o pensamento, tantas vezes confundido com doenças do forro filosófico. o cepticismo, aceitar a existência do vácuo como uma existência firme. quando o silêncio se ouve por não ser ausência de som, mas a presença de som nenhum. contaram-me uma história de um louco embarcado numa nau, cujas velas brancas anunciavam a recompensa divina. saltita o louco agora qual uma lebre pelo pomar de macieiras.


2 comentários:

Alice disse...

Gostei muito...
De quem é aquela quadra?

Alice disse...

Obrigada!
Em relação à quadra: está tão adorável e tão popular, que poderia ser um daqueles cantares ancestrais.