quarta-feira, 5 de junho de 2013

cemos; çados nós

Entardecemos, entrelaçados nós.
Um sol diluído pelas paredes do quarto e caramelizado no meu cabelo- corpos desnudos, gotículas de suor, odores. Estendes-me a mão num areal de mantos, onde a sonolência é um único mar, de cristal, onde todos os sonhos estão ao alcance da pele. 
Tacteando- sob a luz âmbar do entardecer, entrelaçados nós- encontras-me em curvas que nunca senti, vales, encostas, colinas de mim que ousas explorar. 
Tocas-me- seca eu, as tuas mãos parecem ter sede- vagueias à procura de rios, de água que te afogue em lumes brandos, e escalas o peito, a minha boca é um poço. 
Tons de mel lentamente gelam os lençóis e, algures em céus arroxeados, acendem-se estrelas, humildes chamas das noites, cúmplices, ladras de pudores. 
Anoitecemos, abraçados nós.

domingo, 2 de junho de 2013

Asas

Asas, tragam-me asas sem qualquer ave
Peço
E repito, tão triste e fortemente
Que em minhas costas
Um par delas se ergue.

Asas crescem de mim
E eu ainda não voei.

Iolanda Oliveira

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Dançar como aves

Talvez se o meu cabelo cortasse o ar delicadamente num rodopio- em passos de anjo e pequenos voos, braços arqueados como asas e pés descalços- soubesse eu dançar como aves- e cobriria os meus olhos de sombras para que os visses também, a eles, dançar. Talvez se os meus modos fossem mais delicados, como perfume de framboesa num jardim de inverno e com ponta dos meus dedos te encontrasse amor, pousando no chão do meu salto de mariposa em chamas, com a ponta dos dedos te derretesse a pele, qual neve. Encontrasse eu o segredo de tal beleza, não fosse eu mulher das palavras, e reproduzir em perfeição cada um desses gestos, e, exclamo suspiros, oh, oh... pudesse. Talvez pudesses também tu, gostar de mim. 

Iolanda Oliveira

quarta-feira, 22 de maio de 2013


 Pelas noites descansa o corpo,
Que acorda para a insónia,
Pede-te que venhas, lento-
Quente, como chamas que não ferem.
Pede-te que venhas... Vem.

Fala-me de ontem e de amanhã
Que o hoje cansa, cedo-
Logo pela manhã.
Fala-me do que foi, do que será,
Porque só do que é se tem medo.

Mas apaga as luzes, se vieres,
Que olhar-te tem um preço:
Querer que fiques...
Posso antes ouvir-te, tocar-te e imaginar
Apenas, que imagino que te tenho.

E adormecer em pele morna
De nos termos.
Sob o som do relógio que compassa o ritmo
Do esquecimento. Acenderias um cigarro?
Sorver dele o meu sono.

Faz o tempo perder as horas...
O infinito perder o tempo.
Faz com que seja- agora!-
Eterno, esse momento.
Mas, no fim, não me acordes, vai embora.
 
Iolanda Oliveira

sábado, 11 de maio de 2013

Abstrato natural

Procuro abstrair-me de fantasias, dos tentáculos tentadores dos sonhos cujas ilusões nos aparecem verdadeiras à percepção. Olho em volta, tentando filtrar o real, mas tudo o que encontro é gelado, é triste. Sento-me na esplanada, peço uma meia de leite, sem sonhos por favor, e é tudo, perguntam-me, sim, se faz favor. Uma meia de leite e é tudo, sem sonhos. Traz-me educadamente o pedido e mal me olha nos olhos, avental branco, camisa bem passada a ferro, ar esgotado. São dez e meia da noite, faz tempo que a lua se colocou além, um pouco acima da ponte, parecendo pousar para a calma cidade, espelhando-se no rio porque brilho lhe falta pela noite. Uma meia de leite, quente, enternecedora para as mãos e é tudo, sem sonhos. Embora, por estas horas, bastasse uma distracção para que a loucura esvoaçasse nesta mente, vibrasse nas cordas vocais, tremesse pelas mãos, sem precisar de aguentar até poder escrevê-la. Olho em volta, um casal duas mesas atrás, conversam baixinho ou sussurram amor, à minha direita, um senhor de idade bebe em pequenos goles uma cerveja, de olhos fixos no televisor. É quarta-feira, o estabelecimento tem pouco movimento. Olhe, podia chegar aqui, por favor? O empregado aproxima-se devagar, olhar baixo, no mais comum movimento da rotina, deslocando-se para atender outro das centenas de clientes que serve por dia. Sim, deseja mais alguma coisa? Sorrio-lhe e atento na expressão despreocupada, porém, lentamente e num leve esgar, formando traços de impaciência e seguidamente de incompreensão. Desejo sim, poderia sentar-se um pouco aqui e conversar comigo? Como diz, ele questiona, de todos os pedidos que lhe haviam feito este era sem dúvida o que mais o espantara. Homem de cerca de vinte e três anos, bom aspecto, apesar de exausto, pele tom de castanha, olhos de ébano, dentes perfeitamente alinhados. Porém, não me consigo recordar se era bonito ou não, levei-lhe os traços comigo e agora escrevo-os, mas não estudei tempo suficiente o seu rosto para sorver a essência dos seus modos. Tampouco fiquei tempo suficiente para lhe escutar uma resposta, pois de súbito, a loucura expectante existente em mim quis caminhar pela noite, junto à foz, contando estrelas e brilhando à Lua, que tão cheia de luz estava às onze horas... Obrigada, aqui tem, fique com  troco, disse-lhe. Oh, e veja como está linda a noite de hoje, disse ainda, sobre o ombro, enquanto abria a porta para sair. 
                                                                                                      Iolanda Oliveira 

sábado, 27 de abril de 2013

Diário da insanidade

Algo que chega aos sentidos neste instante, me cruza a mente- silencio o som, quero ouvir-me por dentro: Posso até amá-los por momentos, ou que os momentos se prolonguem por dias e anos. Mas eu sei que um dia, inevitavelmente vindouro, terei de matar esses corações, assim friamente como quem espreme uma nectarina com a mão. Ou então- e porque não?- recortar apenas o espaço onde o meu tom se entranhou transformando aquela batida numa outra, mais minha que sua. Vocês devem estar a perguntar-se porquê. Simplesmente, porque os corações ao mesmo ritmo não igualam mentes na mesma frequência. (...) 
                                                                            Iolanda Oliveira, in her own diary

terça-feira, 23 de abril de 2013

Silence's echo

Tomorrow’s day, it suddenly

Melted away along with her dreams

She just wanted to go home

Though, she has none.



In the middle of a giddy bridge

She heard the birds on the silence’s echo

And looked around to find her love

She had none.



While the city lights sheltered her skin

The rain messed up her hair.

She burned her pale wrist with her daddy’s

Lighter. She didn’t care.

                                                                                                         Iolanda Oliveira